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21 de março 2021

Diabetes, inimigo silencioso

Dra. Maria José Simões da Silva | Diretora Clínica
(Serviço Médico Permanente)

Uma doença com as caraterísticas da Diabetes mellitus (DM) é conhecida desde a Antiguidade (1550 A.C.), havendo descrições por médicos Hindus, nos séculos V e VI, de duas formas da doença: a que aparece nos jovens magros que não sobrevivem e outra nos mais velhos, obesos. Esta divisão empírica antecipa a classificação atual de tipo 1 e tipo 2.

A DM é uma perturbação metabólica, caracterizada por um estado de hiperglicemia crónica devido a uma deficiência relativa ou absoluta na secreção de insulina, podendo associar-se a graus variáveis de insulinorresistência. Esta hiperglicemia crónica é responsável por diversas alterações do metabolismo dos hidratos de carbono, lípidos e proteínas e por um grande
número de complicações.

Estão envolvidos no desenvolvimento da diabetes, vários mecanismos patogénicos: uns que destroem as células-β do pâncreas com consequente deficiência de insulina e outros que resultam da resistência à ação da insulina.

Em 2019, segundo a International Diabetes Federation (IDF), havia 463 milhões de adultos com diabetes, estimando-se que que o seu número aumente para 578 milhões até 2030, tendo causado 4,2 milhões de mortes e dessas, cerca de 1,5 milhão de foram causadas diretamente pela diabetes.

De acordo com informação do Observatório Nacional da Diabetes, em 2018 a prevalência estimada da DM na população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos foi de 13,6%, isto é, mais de 1 milhão de portugueses neste grupo etário tem diabetes, dos quais 56% já diagnosticados e 44% ainda não diagnosticados.

Portugal posiciona-se entre os países Europeus que registam as mais elevadas taxas de prevalência da DM, tendo-se verificado um aumento na ordem dos 16,3% nos últimos 10 anos.

Aproximadamente 40% das pessoas com DM vêm a ter complicações tardias da sua doença.
Estas complicações evoluem de forma silenciosa e, muitas vezes, só são diagnosticadas quando já estão instaladas.

As complicações crónicas da diabetes são multissistémicas, sendo a principal causa de doença cardiovascular, cegueira, insuficiência renal e amputação dos membros inferiores.

É possível reduzir os seus danos através de um controlo rigoroso da glicemia, bem como de uma vigilância periódica dos órgãos mais sensíveis (olho, rim, coração).

As implicações para a sociedade portuguesa são substanciais com um contributo de 3,6% para a carga global da doença medida pela incapacidade e morte prematura.
Para além do grave problema de saúde pública, a diabetes captura parte substancial dos recursos da sociedade (1% do PIB), estimando-se o seu custo em Portugal em 1.300 a 1.550 milhões de euros por ano, dos quais 60% correspondem a custos diretos de tratamento da patologia.

Até ao momento, a diabetes tipo 1 não pode ser evitada, estando ainda em investigação quais fatores que se acredita poderem gerar o processo que resulta na destruição das células produtoras de insulina pelo pâncreas.

Embora sejam vários os fatores que influenciam o desenvolvimento da diabetes tipo 2, é sabido que os mais influentes são os comportamentos comumente associados à urbanização: consumo de alimentos não saudáveis e sedentarismo.

Intervenções e políticas que promovam comer com sabedoria e fazer exercício físico regularmente, podem contribuir para atrasar ou prevenir o aparecimento deste tipo de diabetes.

Com a descoberta da insulina há 100 anos e, posteriormente, dos antidiabéticos orais, deu-se uma profunda transformação no futuro e vida das pessoas com diabetes.

A diabetes é, sem dúvida, um dos principais desafios em cuidados de saúde no século XXI e, como doença que não dói mas rói, prevenir é o melhor remédio.

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